A minha relação com os computadores pessoais se confunde com a própria história dos computadores pessoais no Brasil. Nós, eu e as outras pessoas da minha geração que curtem informática, fomos privilegiados ao poder viver e curtir cada etapa do crescimento da computação pessoal em nosso país, desde seu nascimento. Há exatos 25 anos atrás, em 1981, eu era um adolescente estudante de eletrônica na ETI (Escola Técnica Industrial) Lauro Gomes e leitor assíduo da revista Nova Eletrônica; fiquei completamente fascinado quando, num determinado mês, a capa da revista anunciava o primeiro computador realmente pessoal e de baixo preço do país, o NE-Z80, uma cópia do computador ZX-80, fabricado pela Sinclair na Inglaterra; claro que o “baixo” preço era simplesmente caro demais para um estudante de nível médio de escola pública; mesmo assim, não deixava de acompanhar todas as reportagens seguintes, lendo os programinhas em Basic e imaginando quando teria oportunidade de ter um computador daqueles. Na verdade, creio que esse micro da Nova Eletrônica (fabricado pela Prológica) nunca chegou a ser comercializado. Ao terminar o colégio técnico, era hora de procurar estágio. Fui trabalhar numa empresa de aparelhos eletrônicos de medição, utilizados na indústria automobilística; devo ter sido um péssimo estagiário pois fui dispensado depois de um mês . Saí em busca de nova oportunidade e onde fui parar ? Na Microdigital, mãe dos famosos computadores TK. Aí a paixão pegou de vez; comecei na empresa na época dos TK-82C, iniciando na revisão dos micros que saíam da linha de produção e mudando depois, definitivamente, para a área de assistência técnica. Lembro-me de várias vezes pedir autorização para ficar após o expediente só para usar os micros e digitar programas em Basic publicados em revistas – tempos bons aqueles. Aqueles micros eram tudo de bom: pequenos, “poderosos” e fáceis de usar; bastava conectar a uma televisão e ter um gravador K7 para gravar e ler os programas.
Depois vieram os TK-83, TK-85, TK-90, TK-95, TK-2000 (um “quase” Apple), TK-3000 (um Apple IIe de verdade); tive também um Apple portátil, muito bonito, fabricado não me lembro por quem. Já cursando a faculdade, em 1986, comprei um MSX (HotBit, fabricado pela Sharp) que é o micro do qual eu tenho mais saudades; fiz com ele vários trabalhos para a faculdade, todos devidamente impressos numa impressora matricial Elgin Lady 80, de última geração. Enquanto em casa eu possuía um microcomputador de verdade, na faculdade tínhamos que codificar programas em PL/1 e Cobol em formulários que depois eram digitados no CPD e viravam cartões perfurados; eram vários dias de espera entre enviar os formulários e receber uma listagem de resposta, onde poderíamos ver se o programa havia rodado ou haviam bugs a serem corrigidos. No início da era dos PC, quando a Microdigital já fabricava micros PC-XT e até PC-AT e eu já tinha um PC em casa (na verdade, eram só as placas sem o gabinete, com um monitor CGA âmbar), eu tive a chance de me mudar para outra empresa, justamente para a IBM, mãe dos PCs e tantas outras coisas que temos por aí, onde estou até hoje. Depois que entrei na era dos PCs, passei basicamente por mudanças de software, sem nenhuma mudança radical na plataforma de hardware, apenas upgrades de vez em quando. Foi a época do DOS (3.3, 4.01, 5, 6…), do Geoworks Ensemble (duvido que alguém conheça esse !), e depois do Windows 1.0, 3.1, 95, 2000 e agora o XP, esperando pelo Vista. Ao longo de todo esse tempo, também, experimentei toda a evolução da comunicação entre computadores, até chegarmos à internet como é hoje. No início foi o MSX acessando o vídeo-texto da Telesp com um modem 1200/75bps; depois de um upgrade para um modem de 300bps comecei a (tentar) usar as primeiras BBS; como essas BBS tinham poucas linhas telefônicas, gastava-se horas e horas até conseguir uma conexão. Hoje, com acesso banda larga à internet, ninguém consegue imaginar o que é ficar discando milhares de vezes para uma BBS ou mesmo para os primeiros provedores de internet. Além do anúncio do NE-Z80, o outro que me marcou muito foi o de lançamento do primeiro Macintosh, veiculado uma única vez na TV americana em 1984 (foi exibido aqui no Brasil no mesmo ano, em um programa que apresentava comerciais de TV de outros países). Eu lia com atenção tudo o que se publica sobre o Macintosh – a interface gráfica, os ícones, o mouse eram fantásticos (tudo bem que nada disso foi inventado pela Apple, mas quem se importa). Por aqui, quase tivemos um clone do Mac, feito pela Unitron, mas a Apple consegui impedir junto ao governo brasileiro o seu desenvolvimento e comercialização. Por inúmeros motivos, pessoais, profissionais, financeiros e por falta de conhecimento mesmo, nunca adquiri um Macintosh e na verdade nunca nem usei um. Desde o lançamento do Mac Mini, no entanto, a chama re-acendeu… Nestes últimos 25 anos vivenciamos um período de evolução enorme; socialmente, estamos mais conectados e globalizados; comercialmente, muitos fabricantes e plataformas de hardware e software surgiram, foram revolucionários em suas épocas e desapareceram. No Brasil, sempre estávamos atrás das novidades e lançamentos e quase nada do que estava disponível em outros países conseguiu chegar até nós; muita coisa boa nem passou perto, graças à nossa reserva de mercado. Felizmente, isto mudou. O que temos (até hoje, pelo menos), basicamente, são duas plataformas de computadores pessoais: PC com Windows e Apple com Mac-OS. Mas é visível que está em curso um processo irreversível de convergência entre essas plataformas: qualquer um consegue executar o MacOs em um PC e já se reportou sucesso na tentativa de rodar Windows XP nos novos Mac-Intel. Os especialistas e fofoqueiros de plantão dão como certo que a Apple irá tanto licenciar o MacOs para qualquer outro equipamento quanto adotar o Windows em suas máquinas. Eu me recordo com nostalgia de todas os computadores que possuí ou tive acesso. Mas não posso “ter saudades” de um Mac, porque nunca tive um.